Eram seis horas da tarde. O clima no hospital começava a se acalmar quando alguém entrou na sala dos médicos com a notícia de que o paciente número 342209 havia acordado. Tratava-se de uma surpresa, pacientes vitimados por um coma tão duradouro como aquele dificilmente tornam à realidade. Os tratamentos prestados ao sujeito já apenas o mantinham vivo, não havia qualquer esperança de que despertasse. Sua família o abandonara há anos.
Thomas, o jovem médico responsável pelo paciente, tratou de ir verificá-lo, eufórico por ser testemunha de um caso raríssimo da medicina. Além disso, é sempre muito prazeroso contar as novidades aos desavisados. Em uma situação como essa, em que a pessoa a ser informada não presenciou os acontecimentos das últimas décadas, o prazer prometia-se incomensurável.
Após interrogar brevemente duas enfermeiras em plantão, Thomas descobriu que o homem não se lembrava de coisa alguma anterior ao acidente responsável pela sua enfermidade. Em casos como esse, espera-se que o médico instrua o paciente em sua readaptação à sociedade.
O médico entrou no quarto em que o paciente 342209 havia passado imensa fração de sua existência e foi ter com ele.
− Olá, senhor. Vejo que despertou de seu sono profundo − disse Thomas
− Pelo jeito, o doutor tem um sexto sentido.
A resposta irônica não diminuiu a empolgação de Thomas pela tarefa a que havia sido moralmente designado. Era natural que alguém que passara 32 anos em coma acordasse de mau humor.
− Meu nome é Thomas, estou aqui para trabalhar em sua adaptação à realidade. Trazê-lo de volta ao mundo, em outras palavras.
A proposta pareceu interessante, e o paciente pediu ao seu novo tutor que lhe informasse em que ano estavam.
− Estamos no ano de 2214, senhor. 23 de março, para ser mais exato.
Ser chamado por senhor causou espanto ao doente, mas não mais do que a data. Fazendo uma breve cogitação, chegou à conclusão de que contava 64 anos. Curiosamente, a amnésia não lhe havia saqueado a data de nascimento. Lembrava-se perfeitamente que viera ao mundo − pela primeira vez, é claro − em 2150. Absorto em seus pensamentos, demorou para perceber que Thomas ainda estava falando.
− Como, infelizmente, tenho poucas informações sobre o senhor, terei de lhe falar sobre os principais acontecimentos do mundo, apenas para situá-lo na história. Além disso, tentarei orientá-lo sobre os bons costumes. Você sabe… para que possa participar da sociedade.
Enquanto o doente ouvia atentamente, Thomas passou um grande tempo falando sobre guerras, soluções que a humanidade havia encontrado para os problemas ambientais e outros temas que julgou importante. O peculiar é que ele se deteve por mais tempo em um assunto aparentemente trivial, os novos programas de televisão.
− Por que você passa tanto tempo falando sobre televisão. Que há de tão interessante nisso? − perguntou o paciente, já irritado.
− Acontece que tudo o que precisamos saber para convivermos em sociedade pode ser encontrado na TV. − retrucou o médico indignado com a indiferença de seu discípulo.
Diante da surpresa que acometeu o paciente ao ouvir aquilo, Thomas achou melhor esclarecer com mais calma tudo o que dizia respeito à televisão. Explicou que, somente por meio das televisões 5s ( 5 sentidos ), era possível entrar em contato com o mundo ideal. A realidade seria mais próxima do perfeito quanto mais possível fosse copiar o que se via na televisão.
− Isso me parece absurdo − disse o enfermo
O médico sentiu-se ofendido com o comentário, como uma coisa tão elementar poderia ser absurda?
− Não há nada de absurdo nisso. Sempre foi assim. − disse Thomas firmemente.
− Não é possível. O que existia antes da televisão? − perguntou o paciente.
− Não há registros. Acontece que depois do Grande Choque da Internet…
Usarei minha onipotência como narrador e resumirei a palestra, de modo a poupar aquele que porventura me estiver lendo do enfadonho discurso proferido pelo médico.
Thomas explicou que após o Grande Choque da Internet, nada que descrevesse o modo de vida anterior podia ser encontrado. O Choque foi uma fatalidade, a formatação total de todos os arquivos da rede. “Certamente causado por um monstruoso ataque neo-terrorista”, nas palavras do médico.
Contou também que a grande maioria dos homens havia abdicado das relações humanas, que julgavam pouco confiáveis. Dessa forma, nenhuma informação ouvida daqueles que viveram na época anterior ao Choque podia ser levada em conta.
Dezenas de historiadores foram incumbidos da tarefa de reconstruir a história. Os resultados eram pouco animadores. Após meses de trabalho, descobriu-se que todos os documentos haviam sido digitalizados por volta do ano 2134. Supõe-se que se fizera isso para atender a alguma demanda ambiental da época.
Apesar de nenhuma certeza ter sido obtida, havia fortes evidências de que o que regia a vida em sociedade era algo chamado Cristianismo. Muitos livros desta doutrina foram encontrados nos escombros das antigas civilizações. No entanto, não havia unanimidade no que dizia respeito às Bíblias. Alguns julgavam serem apenas livros de histórias infantis muito populares.
− Portanto, como não temos certeza de como se vivia antes, e não podemos confiar nos vivos, achamos melhor acreditar que a convivência ideal pode ser alcançada através da televisão. − Finalizou Thomas.
− Bom, se você está dizendo… Mas e quanto à política? Como funciona nos dias de hoje? − Perguntou 342209.
− Temos eleições periódicas, nosso sistema é muito democrático. − Afirmou orgulhoso o médico.
O paciente pareceu feliz ao ouvir isso, e perguntou qual era a ideologia dominante.
− Ideologia? Não sei do que o senhor está falando.
− Ora, ideologia. Como posso explicar? Quais são os partidos que concorrem ao poder? Que tipo de governo eles costumam exercer? − Perguntou o paciente, desconcertado pela ignorância de Thomas.
− Olhe, senhor, não sei bem do que está falando. Todos os governantes apenas repetem o que o anterior fez. Não vejo por que mudar nossa forma de governo se a sociedade funciona perfeitamente.
− Mas e…
− Não tem “mas”. O senhor não deve questionar, apenas aceite. Todos os que tentaram questionar tiveram tristes destinos. − Interrompeu raivosamente o médico.
− Certo. Então me conte um pouco mais sobre essa história de Televisão. De que forma devemos seguir seus ensinamentos? − Perguntou desanimado o doente.
− Ora, é muito simples. Basta assistir aos principais shows da programação e analisar o comportamento dos participantes.
− Ah… E como começou essa história de televisão? Digo, antes do tal Choque.
− Como eu já disse, é impossível saber. Mas há quem diga que há muito tempo, o homem inventou a televisão, e não o contrário… Mas eu acredito que seja apenas uma lenda.
− Bom, então ligue a televisão para eu começar a me acostumar.
E então, Thomas sentiu que seu dever estava cumprido. Mais um cidadão exemplar estava sendo formado para aquela primorosa sociedade. A vida continuaria perfeita e nada teria que mudar.
342209 estava tão excitado com os conhecimentos que vinha adquirindo através daquele aparato que passou dias sem sequer perguntar qual era o seu nome. Mas afinal, que importância isso teria?