CHUVA MOSTRA LADO ROMÂNTICO DE SÃO PAULO

dezembro 8, 2009 por leoblecher

           A intensa chuva que caiu sobre São Paulo na madrugada do dia 8 de dezembro trouxe a cidade de volta a um clima de romantismo não visto há tempos. Os belos canais formados nas ruas da capital paulista tornaram a paisagem semelhante à de Veneza.

            Em algumas vias da Zona Norte, podiam-se ver inúmeros namorados declarando amor às suas amadas em belas gôndolas improvisadas com pedaços de madeira, arrancados dos barracos para tornar o clima ainda mais inebriante. Nas marginais Tietê e Pinheiros, os motoristas estacionavam seus carros e desciam para admirar a beleza dos rios, há muito esquecida pelos habitantes da mais nova capital brasileira do amor.

            A parte triste deste histórico dia ficou por conta dos seis casos de morte. A mulher de uma das vítimas, que não quis se identificar, preferiu ver o lado positivo do óbito: “Ao menos o meu marido faleceu no dia mais feliz de sua vida, enquanto fazia uma linda serenata para mim”.

            Muitos trabalhadores não compareceram ao serviço, preferindo permanecer em suas casas, observando a maravilhosa paisagem que se apresentava à janela.

Dupla vencedora na chegada da I Prova Metropolitana de Remo

            A prefeitura já se pronunciou, afirmando que o dia 8 de dezembro será proclamado feriado municipal do romance. Segundo o representante da Câmara dos Vereadores, Jorge Capião, “Esse dia certamente vai permanecer na memória dos paulistanos para sempre”.

Sobre Internet e democracia

setembro 8, 2009 por leoblecher

Novas tecnologias

É difícil enxergar com otimismo qualquer tendência oriunda da modernização das tecnologias digitais. Dando uma breve passada de olhos pelos assuntos mais comentados da agenda pública, deparamo-nos com twitters, orkuts e afins. O que se pode extrair disso tudo?  Pouca coisa, acho. Mas eu aprendi que o conservadorismo é feio e que devo surfar na onda do novo tempo. Vejamos.

A Internet está supostamente democratizando a vida e uma nova realidade de não-ignorância não tarda a chegar. O Youtube democratiza a arte, os blogs democratizam a notícia, etc. Bem, talvez isso seja verdade, mas custo a acreditar que isso esteja gerando algum conhecimento realmente importante. Dou uma olhada nos videos mais populares do Youtube e eis que me deparo com Zina, o mais novo integrante do programa “Pânico”, cidadão que se tornou famoso por falar “Ronaldo”. Realmente emancipador.

Em seguida vou ao google procurar por “blogs mais acessados do Brasil”. O resultado não é muito diferente, o campeão de visitas é o “Kibeloco”, um blog de piadas infames sobre os assuntos em pauta (uma espécie de “Casseta e Planeta” digital).

Não pretendo afirmar que a Internet é a culpada por tornar o povo ignorante. Muito ao contrário, a Internet, assim como qualquer outro meio de comunicação, é um reflexo de uma realidade social. A população média brasileira quer esse tipo de informação, é uma questão de oferta e demanda.

 Jornalismo cidadão

Em se tratando de jornalismo, não acredito que as tecnologias digitais produzam um efeito muito diferente do supracitado. O número de pessoas interessadas em promover a informação e a educação da população é, creio eu, inversamente proporcional ao daquelas que buscam por Zina no Youtube. Portanto, a mera inovação da técnica não nos levará ao paraíso democrático profetizado por muitos.

No entanto, se no meio desse mar de ignorância, surgisse alguém que desejasse  produzir bom jornalismo, e que fosse fiel aos valores caros à atividade, não vejo por que o diploma seria necessário. Não acredito que os cursos de jornalismo ofereçam – ou pudessem oferecer – tamanho conteúdo que justifique sua exigência para que se exerça a profissão.

Não acredito, tampouco, que o jornalismo cidadão é capaz de substituir inteiramente a atividade do profissional de imprensa. Somente alguém totalmente envolvido com o ato de informar se dispõe a ir atrás da notícia onde quer que ela esteja, e tem os meios para fazê-lo (bancados pelos veículos que os empregam). Portanto, alguém que tem um emprego comum e é jornalista de fim de semana certamente não atenderá toda a demanda da população, seja por falta de meios, seja por falta de disposição.

Outro mito que é preciso desvendar é o de que o jornalismo cidadão está isento dos interesses comerciais que movem a grande imprensa. Me parece ingenuidade acreditar que apenas por não ser realizado por um conglomerado da comunicação, ou por receber o nome de “cidadão” esse tipo de jornalismo estaria livre dos interesses do realizador.

Assim, mantenho uma opinião um pouco indiferente a essas tendências. Enquanto não houver uma revolução na educação, a revolução na técnica será em vão.

Alguém aí precisa de um guarda norturno?

agosto 25, 2009 por leoblecher

Luzes apagadas, algodões nos ouvidos, atividade mental a todo vapor. Repetirei novamente uma seqüência de atividades que vem, contra minha vontade, se tornando um ritual.

 Olho no celular à cabeceira e percebo que são 03:38. Não há a menor esperança de sono para as próximas três horas, calculo.

 Toda minha capacidade criativa que esteve adormecida durante o dia pede espaço para vir à tona. Parece que tudo o que li, vi, aulas a que assisti, enfim, tudo se mistura e deseja ganhar vida através de meus neurônios.

 Nada resta para mim senão ir até a cozinha, rezando para não encontrar algum familiar que decerto se oporia ao meu hábito de trocar o dia pela noite, e servir-me de uma generosa dose de uísque.

 Com algum álcool no sangue, finalmente me rendo aos meus pensamentos, esperando que ao menos eles me rendam algo de útil.

 Nesse tempo, meu desempenho mental me assusta. A rapidez com que surgem novas – e pasmem, boas! – ideias é notável.

 Se leio um livro, certamente desenvolvo interpretações que talvez até o autor ignora (ou ignorava, no caso de um autor já morto). O mesmo vale para filmes e programas de televisão. Eu diria que até jogos de futebol ganham cores inesperadas. Escrevo cartas de amor, tomo conclusões particulares importantíssimas. Sou um sujeito formidável quando submetido a algumas horas de insônia.

 Não é possível que me neguem a opção de viver uma vida noturna. O único valor que posso ter para a sociedade e, principalmente, para mim mesmo depende dessa condição.

 Exijo liberdade para exercer esse meu hábito e, ainda assim, ter condições financeiras para me sustentar, ou seja, comprar garrafas de uísque, “laricas” e cigarros de palha. Alguém aí precisa de um guarda noturno?

Diálogo pós-moderno

maio 29, 2009 por leoblecher

Eram seis horas da tarde. O clima no hospital começava a se acalmar quando alguém entrou na sala dos médicos com a notícia de que o paciente número 342209 havia acordado. Tratava-se de uma surpresa, pacientes vitimados por um coma tão duradouro como aquele dificilmente tornam à realidade. Os tratamentos prestados ao sujeito já apenas o mantinham vivo, não havia qualquer esperança de que despertasse. Sua família o abandonara há anos.

Thomas, o jovem médico responsável pelo paciente, tratou de ir verificá-lo, eufórico por ser testemunha de um caso raríssimo da medicina. Além disso, é sempre muito prazeroso contar as novidades aos desavisados. Em uma situação como essa, em que a pessoa a ser informada não presenciou os acontecimentos das últimas décadas, o prazer prometia-se incomensurável.

Após interrogar brevemente duas enfermeiras em plantão, Thomas descobriu que o homem não se lembrava de coisa alguma anterior ao acidente responsável pela sua enfermidade. Em casos como esse, espera-se que o médico instrua o paciente em sua readaptação à sociedade.

O médico entrou no quarto em que o paciente 342209 havia passado imensa fração de sua existência e foi ter com ele.

− Olá, senhor. Vejo que despertou de seu sono profundo − disse Thomas

­­− Pelo jeito, o doutor tem um sexto sentido.

A resposta irônica não diminuiu a empolgação de Thomas pela tarefa a que havia sido moralmente designado. Era natural que alguém que passara 32 anos em coma acordasse de mau humor.

− Meu nome é Thomas, estou aqui para trabalhar em sua adaptação à realidade. Trazê-lo de volta ao mundo, em outras palavras.

A proposta pareceu interessante, e o paciente pediu ao seu novo tutor que lhe informasse em que ano estavam.

− Estamos no ano de 2214, senhor. 23 de março, para ser mais exato.

Ser chamado por senhor causou espanto ao doente, mas não mais do que a data. Fazendo uma breve cogitação, chegou à conclusão de que contava 64 anos. Curiosamente, a amnésia não lhe havia saqueado a data de nascimento. Lembrava-se perfeitamente que viera ao mundo − pela primeira vez, é claro − em 2150. Absorto em seus pensamentos, demorou para perceber que Thomas ainda estava falando.

− Como, infelizmente, tenho poucas informações sobre o senhor, terei de lhe falar sobre os principais acontecimentos do mundo, apenas para situá-lo na história. Além disso, tentarei orientá-lo sobre os bons costumes. Você sabe… para que possa participar da sociedade.

Enquanto o doente ouvia atentamente, Thomas passou um grande tempo falando sobre guerras, soluções que a humanidade havia encontrado para os problemas ambientais e outros temas que julgou importante. O peculiar é que ele se deteve por mais tempo em um assunto aparentemente trivial, os novos programas de televisão.

− Por que você passa tanto tempo falando sobre televisão. Que há de tão interessante nisso? − perguntou o paciente, já irritado.

− Acontece que tudo o que precisamos saber para convivermos em sociedade pode ser encontrado na TV. − retrucou o médico indignado com a indiferença de seu discípulo.

Diante da surpresa que acometeu o paciente ao ouvir aquilo, Thomas achou melhor esclarecer com mais calma tudo o que dizia respeito à televisão. Explicou que, somente por meio das televisões 5s ( 5 sentidos ), era possível entrar em contato com o mundo ideal. A realidade seria mais próxima do perfeito quanto mais possível fosse copiar o que se via na televisão.

− Isso me parece absurdo − disse o enfermo

O médico sentiu-se ofendido com o comentário, como uma coisa tão elementar poderia ser absurda?

− Não há nada de absurdo nisso. Sempre foi assim. − disse Thomas firmemente.

− Não é possível. O que existia antes da televisão? − perguntou o paciente.

− Não há registros. Acontece que depois do Grande Choque da Internet…

Usarei minha onipotência como narrador e resumirei a palestra, de modo a poupar aquele que porventura me estiver lendo do enfadonho discurso proferido pelo médico.

Thomas explicou que após o Grande Choque da Internet, nada que descrevesse o modo de vida anterior podia ser encontrado. O Choque foi uma fatalidade, a formatação total de todos os arquivos da rede. “Certamente causado por um monstruoso ataque neo-terrorista”, nas palavras do médico.

Contou também que a grande maioria dos homens havia abdicado das relações humanas, que julgavam pouco confiáveis. Dessa forma, nenhuma informação ouvida daqueles que viveram na época anterior ao Choque podia ser levada em conta.

Dezenas de historiadores foram incumbidos da tarefa de reconstruir a história. Os resultados eram pouco animadores. Após meses de trabalho, descobriu-se que todos os documentos haviam sido digitalizados por volta do ano 2134. Supõe-se que se fizera isso para atender a alguma demanda ambiental da época.

Apesar de nenhuma certeza ter sido obtida, havia fortes evidências de que o que regia a vida em sociedade era algo chamado Cristianismo. Muitos livros desta doutrina foram encontrados nos escombros das antigas civilizações. No entanto, não havia unanimidade no que dizia respeito às Bíblias. Alguns julgavam serem apenas livros de histórias infantis muito populares.

− Portanto, como não temos certeza de como se vivia antes, e não podemos confiar nos vivos, achamos melhor acreditar que a convivência ideal pode ser alcançada através da televisão. − Finalizou Thomas.

− Bom, se você está dizendo… Mas e quanto à política? Como funciona nos dias de hoje? − Perguntou 342209.

− Temos eleições periódicas, nosso sistema é muito democrático. − Afirmou orgulhoso o médico.

O paciente pareceu feliz ao ouvir isso, e perguntou qual era a ideologia dominante.

− Ideologia? Não sei do que o senhor está falando.

− Ora, ideologia. Como posso explicar? Quais são os partidos que concorrem ao poder? Que tipo de governo eles costumam exercer? − Perguntou o paciente, desconcertado pela ignorância de Thomas.

− Olhe, senhor, não sei bem do que está falando. Todos os governantes apenas repetem o que o anterior fez. Não vejo por que mudar nossa forma de governo se a sociedade funciona perfeitamente.

− Mas e…

− Não tem “mas”. O senhor não deve questionar, apenas aceite. Todos os que tentaram questionar tiveram tristes destinos. − Interrompeu raivosamente o médico.

− Certo. Então me conte um pouco mais sobre essa história de Televisão. De que forma devemos seguir seus ensinamentos? − Perguntou desanimado o doente.

− Ora, é muito simples. Basta assistir aos principais shows da programação e analisar o comportamento dos participantes.

− Ah… E como começou essa história de televisão? Digo, antes do tal Choque.

− Como eu já disse, é impossível saber. Mas há quem diga que há muito tempo, o homem inventou a televisão, e não o contrário… Mas eu acredito que seja apenas uma lenda.

− Bom, então ligue a televisão para eu começar a me acostumar.

E então, Thomas sentiu que seu dever estava cumprido. Mais um cidadão exemplar estava sendo formado para aquela primorosa sociedade. A vida continuaria perfeita e nada teria que mudar.

342209 estava tão excitado com os conhecimentos que vinha adquirindo através daquele aparato que passou dias sem sequer perguntar qual era o seu nome. Mas afinal, que importância isso teria?

Comentário sobre o texto “O Sistema Irracional” de Paul Baran e Paul Sweezy

abril 15, 2009 por leoblecher

Aqueles que defendem o modo de produção capitalista muitas vezes alegam que ele é um sistema neutro e que as pessoas que fazem parte dele são as responsáveis pelas suas características. Dessa forma, é comum ouvir argumentações que dizem que a natureza humana é vil e competidora e que o sistema capitalista é uma mera representação coletiva disso. Nada pode ser mais errado do que este tipo de pensamento.

A verdade é que o capitalismo é uma espécie de Frankenstein criado pela humanidade, que há muito tempo ganhou vida própria. Ele age em nome de seus interesses internos e apresenta uma total indiferença para com o bem-estar do homem.

A humanidade está desamparada e os resultados disso são visíveis para alguns, outros apenas os sentem. Os visionários de nosso tempo já estudam o assunto desde que os primeiros indícios de patologia sistemática foram por eles percebidos. O fato é que a irracionalidade que se esconde por trás da sufocante burocracia que assola nossas vidas não pode por muito mais tempo ser ignorada.

As principais instituições capitalistas (corporações) se esforçam para manter intacto o status quo. Gastam bilhões de dólares com marketing para manter a humanidade (mercado consumidor) distraído com superficialidades enquanto uma verdadeira invalidação de sua energia criativa está em curso. Na minha opinião, não é exagero dizer que o homem é escravizado pelas corporações.

Entretanto, não se trata de uma escravidão como a que existiu no período colonial. Trata-se de escravidão inconsciente, da qual o “escravo” é o principal encorajador. Isso por que o capitalismo conseguiu o apoio da maioria de seus “servos”, e aqueles que não são a favor do sistema são tidos como subversivos ou utópicos. A mera proposição uma nova forma de sociedade é tida como uma ofensa para grande parte da população. A humanidade é guardiã de seu próprio cativeiro.

É ingenuidade pensar que a classe dominadora tira algum real benefício da engrenagem capitalista. Talvez isso aconteça se adotarmos as premissas do próprio capitalismo como parâmetro, mas, do ponto de vista humano, eles são tão prejudicados quanto aqueles a quem exploram. Os grandes proprietários, assumindo a condição de pessoas jurídicas, escondem-se atrás de grandes corporações e abrem mão daquilo que os faz seres humanos: sua consciência moral, seus princípios. Acredito que a perda desses valores é um altíssimo custo para qualquer um.

Apesar de as corporações serem as mais emblemáticas instituições defensoras da ordem capitalista, elas não são as únicas. A família, a escola, a universidade, a imprensa, etc. exercem esse papel com tanto empenho quanto qualquer multinacional.

Vejamos, por exemplo, os cursos superiores de que dispomos na atualidade. A maioria desencoraja qualquer tipo de reflexão ou discussão acerca das mazelas da sociedade, castrando os jovens de sua enorme energia renovadora e transformando-os em “funcionários padrão” da empresa em que trabalharão, e do sistema a que defenderão com unhas e dentes. Apenas com muito esforço é possível ao estudante desenvolver um senso crítico sobre a atividade que irá desempenhar. A universidade atual não deseja despertar esse tipo de raciocínio em alguém.

Esse tipo de regulação a que intelectuais em potencial são submetidos acontece em cada esfera de nossa sociedade, acredito não ser necessário explorar muitos outros exemplos. Entretanto, como futuro jornalista, tenho o dever de analisar, ao menos de forma breve, o papel da mídia nesse processo de desumanização que estamos sofrendo.

A grande imprensa é um grande agente mantenedor da ordem capitalista. É por meio dela que são criadas as opiniões que demonizam as novas tentativas de modelo social e as possíveis revoltas. Podemos tomar como exemplo a relação dos grandes jornais brasileiros com líderes como Evo Morales. Suas ações são tidas como retrógradas e são até mesmo ridicularizadas pelos jornalistas.

Eu gostaria de me aprofundar nesse tema, mas no momento não tenho tempo e nem material de estudo para fazê-lo. Basta dizer que o homem tem como adversários grande parte das instituições que supostamente os defendem e enquanto não conhecer seu inimigo, a guerra pela emancipação terá a derrota como certa.

Crítica ‘Taxi Driver’, de Martin Scorsese

março 19, 2009 por leoblecher

Considero o ’sonho americano’ vendido por Hollywood uma grande babaquice. Quem já explorou Nova York sabe o que se esconde por trás daquele maravilhoso paraíso do consumo. As noites da cidade revelam um submundo tão ou mais nefasto do que qualquer rua do centro de São Paulo. É exatamente isso que Martin Scorsese nos mostra em Taxi Driver.

Travis Bickle, interpretado por Robert De Niro, é um veterano da guerra do Vietnã que se torna motorista de táxi para ocupar suas noites de insônia. Dirigindo em bairros pobres de Nova York, a personagem se depara com as mais diferentes perversidades, desde prostituição infantil até assassinatos. Nada parecido com as atraentes lojas da Quinta Avenida.

Enquanto a cidade vive o clima das eleições presidenciais, Travis tenta encontrar um rumo para sua vida. O slogan de um dos candidatos, ‘The people are us’ não faz o menor sentido para um homem solitário como ele. Tão solitário que, quando ele pergunta ‘You talking to me?’, ele está se dirigindo a um espelho. Na realidade, a própria palavra “nós” é esvaziada de significado para nosso protagonista.

Conforme a trama vai se desenvolvendo, a convivência com as figuras do submundo nova yorkino e a falta de um relacionamento afetivo duradouro vão fazendo com que Travis se revolte cada vez mais diante de toda aquela sujeira. A transformação da personagem foi representada primordialmente por De Niro. É claro que a direção de Scorsese também merece todos os elogios.

Travis canaliza suas energias tornando-se um fanático por armas de fogo e busca limpar a escória da cidade. Nessa empreitada ele acaba por ser considerado um heroi, ao matar três homens envolvidos em prostituição infantil e tirar uma adolescente desta profissão. Essa reviravolta revela a carência por personalidades da sociedade norte-americana da época.

Travis Bickle escancara a realidade norte-americana e derruba qualquer noção de orgulho patriótico pela “terra da liberdade”. Logo ele, um antigo ‘marine’ do exército ianque.

Só o que eu posso dizer é que esse filme é uma obra de arte. Um verdadeiro soco na boca daqueles que veneram o paraíso capitalista. Aconselho a todos que assistam a Taxi Driver e confiram este maravilhoso trabalho de um grande ator em parceria com um grande diretor.

Listen, you fuckers, you screwheads. Here is a man who would not take it anymore. A man who stood up against the scum, the cunts, the dogs, the filth, the shit. Here is a man who stood up. Travis Bickle

Reflexões sobre “O social e o político na transição pós-moderna”

março 17, 2009 por leoblecher

O meu primeiro post será um comentário que escrevi sobre o texto “O social e o político na transição pós-moderna”, de Boaventura Sousa Santos. Trata-se de uma tarefa do primeiro ano do curso de Jornalismo da PUC-SP recomendada pelo professor José Salvador Faro. Infelizmente, eu não encontrei o capítulo estudado na íntegra para disponibilizar para download.

O trabalho:

O texto de Boaventura Sousa Santos,”O social e o político na transição pós-moderna”, estabelece uma visão muito pertinente da situação em que a humanidade se encontra. O modelo criado pelo autor em que ele define o projeto sócio-cultural da modernidade nos pilares de regulação e emancipação do indivíduo é eficiente para a análise da sociedade moderna. No entanto, procurarei não me prender inteiramente a esses conceitos em meu comentário para abordar alguns aspectos práticos do que absorvi do capítulo estudado.

Boaventura sugere, no início de sua dissertação, que o trajeto histórico da modernidade está intrinsecamente ligado ao curso do desenvolvimento do capitalismo, apesar de seu início ser anterior à consolidação do sistema capitalista. Concordo com o autor nesse ponto, e acredito ser necessário para a discussão do paradigma moderno que se tome o modo de produção capitalista como ponto de referência para a exposição de algumas das minhas opiniões sobre o assunto. Isso por que, mesmo considerando a importância de cada elemento dos pilares de regulação e emancipação, é impossível negar que o princípio do mercado – possibilitado pelo sistema capitalista – exerce uma dominação frente aos demais. Dessa forma, creio que se possa analisar grande parte da rede de relações entre os pilares pela forma como o capitalismo os influencia.

Para exemplificar o que acabo de propor, comento o princípio da comunidade. Boaventura diz que a comunidade se reduziu a um composto de dois elementos abstratos: comunidade civil (suporte da vida pública) e indivíduo (suporte da vida privada). Essa deturpação da comunidade imaginada por Rousseau se dá, em parte, pelo individualismo pregado pelas ideologias liberais – que resumem o ethos do capitalismo proposto por Max Weber em “A ética protestante e o espírito do capitalismo”. Seguindo a esses preceitos, a pessoa acaba por se sentir antes um consumidor a um agente social.

O indivíduo nasce no ambiente capitalista e introjeta a ideia de que o sucesso profissional e o enriquecimento financeiro são os únicos objetivos que alguém pode almejar. Essa crença acaba levando a duas possíveis frustrações: ou não se obtém o referido sucesso e a convivência com o rótulo de “perdedor” torna-se insuportável, ou então, o enriquecimento é alcançado, seguido da sensação de que o objetivo perseguido não era, enfim, uma fonte de felicidade. É claro que essa é uma análise superficial, mas pode-se perceber aqui uma das grandes manifestações da crise da modernidade.

Para dificultar ainda mais a situação, a Comunidade já não parece ter força – ou vontade – de reagir diante de sua fraqueza. Instituições como as universidades e os sindicatos já não exercem o mesmo poder contestador de outrora. A impressão que eu tenho é que muitas dessas forças revolucionárias foram englobadas pelo Mercado, tornando-se cobertas de interesses comerciais e corroídas pela corrupção.

Outra reflexão que pode ser feita a partir dos pilares propostos por Boaventura diz respeito à relação entre os princípios de Estado e Mercado. A crise econômica que estamos vivendo criou uma situação em que o assunto se tornou particularmente interessante.

Nos Estados Unidos, assim como em outros países centrais para o capitalismo, o mercado se vê obrigado a submeter-se a uma grande influência do Estado. Acredito se tratar de um momento chave para a definição de um novo projeto social para a humanidade.

O texto de Boaventura Sousa Santos faz muitas referências ao déficit de cumprimento de algumas promessas pelo projeto social moderno. Acredito que uma promessa emancipatória que não foi cumprida adequadamente é a da representatividade popular no poder público.

As ideias iluministas de igualdade e a formação das primeiras repúblicas baseadas nesses preceitos causaram a impressão de que a democracia havia sido alcançada. Hoje percebemos que a participação no poder através do voto é muito mais uma formalidade do que uma influencia efetiva nos assuntos da agenda pública. O indivíduo moderno não tem a sensação de estar participando, o que traz o sentimento de impotência frente aos acontecimentos da comunidade.

A questão é que a concepção de democracia criada por nossa sociedade é contraditória. Isso por que a representação no poder se dá por meio da delegação de nossas decisões a terceiros, os políticos. Dessa forma, nosso poder de decisão se realiza quando nós o entregamos a alguém. Na minha opinião, o projeto da pós-modernidade terá de rever o conceito de democracia para poder cumprir algumas promessas feitas pela modernidade.

Creio que a maior das frustrações presentes no projeto da modernidade se encontra no que se refere à racionalidade científico-instrumental. A noção de progresso baseada no crescimento e na produção de riqueza desabou diante da situação ecológica que presenciamos. O tema está sendo – e ainda o será por muito tempo – percorrido por inúmeros intelectuais dispostos a propor uma nova dinâmica econômica. Acredito que o maior desafio da pós-modernidade será lidar com esse cenário contraditório.

Uma outra promessa que foi cumprida de forma inadequada pela modernidade diz respeito à emancipação sexual do indivíduo. As ideias de racionalidade, trazidas a tona também pelo Iluminismo, criaram condições para que a Igreja deixasse de influenciar a vida sexual dos indivíduos da maneira como o fazia. Posteriormente, a Revolução Sexual dos anos 60 e 70 aconteceu, e pensava-se que a forma como a sociedade lida com a sexualidade seria mais saudável e livre. Acredito que uma das promessas cumpridas em excesso está neste ponto.

O sexo passou a ser banalizado e tratado com uma vulgaridade desnecessária. Na mídia, por exemplo, há uma espetacularização do sexo. A mídia, como ferramenta do Mercado, se utiliza do sexo para associá-lo ao consumo. Essa dinâmica gerou uma das grandes frustrações do ser humano moderno. Se alguém não se enquadra nos padrões de sucesso impostos pela sociedade, não participa dos jogos amorosos prometidos pelas campanhas publicitárias.

Outro aspecto patológico da sexualidade na sociedade moderna diz respeito à escolha dos parceiros sexuais. A questão é que esta escolha está muitas vezes associada ao poder aquisitivo da pessoa a ser escolhida. Ao meu ver, essa dinâmica representa uma enorme enfermidade da vida contemporânea. Acredito que esse é mais um aspecto que pode ser conectado facilmente à publicidade e sua falta de limites.

Muitas outras considerações poderiam ser feitas acerca do paradigma da modernidade. A própria questão da influência da propaganda na vida dos indivíduos – que é um tema que muito me agrada – poderia ser explorada de diversas outras maneiras. No entanto, acredito que já abusei do “chute”, por não haver nenhum trabalho de pesquisa e nenhuma metodologia nas hipóteses que levantei. Tenho certeza de que cometi erros em minha argumentação e, para evitar que eu o repita, interromperei o meu texto aqui.