O som do nada

O século XX fracassou em sua promessa de fornecer à humanidade um fim aos mais absurdos sofrimentos que fizeram parte da história desde que se tem notícia da vida civilizada. Ao invés disso, foi um período marcado pelo que de mais horroroso foi visto na história e pela barbárie explícita e despudorosa.

Com isso, ficamos órfãos de utopias e ideologias, que se revelaram apenas ideias e teorias distantes a serem estudadas na universidade por uma geração que vai perdendo ligação com qualquer dos idealismos que marcaram os últimos dois séculos. Com isso, os jovens abandonam a política e fazem de suas vidas meras expressões de suas individualidades e desejos mesquinhos. Quem há de culpá-los?

As gerações passadas foram traídas por um impulso por humanidade que acabou por servir apenas para brindar-nos com banhos de sangue e a visão explícita da miséria. Se o capitalismo nos livraria da escassez, já sabemos que isso não aconteceu e tampouco acontecerá. Se o socialismo daria fim ao histórico de opressões e massacres, vimos que só o fez pior e de maneira mais hipócrita. Ficamos desamparados por esses dinossauros do pensamento humano que já não representam nada senão esqueletos no armário de um presente que queremos ver passado.

Vale lembrar que estamos apenas no início de um século que poderá ainda nos apresentar novas perspectivas, embora estejamos mais preparados a desprezar tolas esperanças. Estamos mais exigentes, embora menos politizados. Mais cientes de nossos direitos, embora menos dispostos a lutar por eles.

Já não há um inimigo claro, mas fica cada vez mais evidente que devemos escrever nossos próprios caminhos, no lugar de nos vestirmos de uma roupagem ideológica que pertence aos livros de nossos pais.

Se o Jazz foi a expressão musical de inadequação no início do século passado, ele acabou se tornando símbolo de liberdade em um país imperialista. Se o Rock n’ Roll foi resultado de uma quebra com valores arcaicos, ele se apresenta agora como mercadoria e começa a cair no esquecimentos pelos jovens. O Rock já não representa a nova geração como um dia o fez, e sobrevive de alguns que preferem escutar o agradável som que ainda fica do passado ao barulho que marca a transição para um novo e nem tão admirável mundo.

A verdade é que, queiram ou não os apreciadores da música do XX como eu, a trilha sonora do novo século é a música eletrônica. A rapidez e a simplicidade desconstrutora dessa era são representadas pelo surdo som do bate-estaca.

O que antes era sentimento e emoção se tornou energia criativa pura. A música eletrônica é uma mera expressão de vitalidade, sem o peso da tristeza ou o colorido da alegria. O som criado em computadores se mostra como símbolo desta época de transição, em que a racionalidade humana se vê livre de emoções e perdida em um mundo de sons repetitivos e aflitivos. A aflição provocada pela música eletrônica nos lembra da condição de não ter em que acreditar, de não haver um método em que nos apoiar, já que os métodos já não fazem sentido algum.

A música eletrônica não é política, não tenta representar nada senão a e falta do que dizer. Não há letra, não há o que pregar. Há apenas a sensação de não se poder permanecer parado. A dança sem sentido, diferente do swing e dos ritmos latinos do século passado. A dança sem sentido é exatamente o que estamos fazendo, os jovens. Estamos dançando por nada, caminhando rumo ao nada, por isso não lutamos por nada.

Nossos pais nos vêem como seres desprezíveis que desperdiçaram tudo aquilo pelo qual lutaram. Nossa realidade é outra, nossos destinos não nos reservam nada, ao contrário do que eles acreditaram sobre os seus destinos.

A música sem voz é o exato porta-voz dessa geração que apenas deseja dançar freneticamente o ritmo de uma nova realidade ainda indecifrada.

Uma resposta para “O som do nada”

  1. Vini N. Disse:

    Melhor dos seus textos, um dos melhores insights (Paulo Cunha way of speaking).

    Foda.

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