Em outra ocasião, provavelmente deixaria frustrado o banheiro, pegaria um café para justificar minha saída e voltaria calmamente ao trabalho, ainda entorpecido por tão horroroso odor. Havia, porém, um bom motivo para que eu escovasse meus dentes: Rosinha.
A sorridente atendente do primeiro andar, que adora conversar comigo. Eu pouco falo e pouco escuto. Apenas sorrio e admiro seu alegre rosto contando em pormenores as besteirinhas de sua vida. Sempre procuro cuidar do hálito antes de ir ter com ela, mesmo quase não abrindo a boca quando acontece.
Mas divago, voltemos ao cheiro. Já conformado com a necessidade de conviver com as pequenas partículas oriundas de um intestino qualquer, limpo cuidadosamente cada intervalo entre dentes, com um grande pedaço de fio dental, provocando minúsculas hemorragias na gengiva. Minha mente não acompanha a ação; está concentrada na maneira com que nossa espécie trata a sua bosta.
O homem é provavelmente o único ser vivo nesta Terra que cria problemas a partir do próprio excremento. Não vi ainda cachorro que encontrasse engodo em cagar fora de casa. O máximo incômodo vivenciado por um cão no que se refere ao seu cocô consiste naquelas três voltinhas que ele dá ao redor do próprio eixo antes de posicionar-se adequadamente. Não tenho dúvidas, no entanto, que se trata de um ritual divertido e inspirador para o nosso melhor amigo.
Somos também os únicos a sofrer com o armazenamento da bosta. Utilizo novamente o exemplo canino como base de comparação. Cachorros não olham para trás após cagar, muito ao contrário: vão em busca de comida. Concretizam mais um ciclo natural. Para ele não vale a pena chorar a bosta derramada. Para nós, bosta é assunto federal. Temos leis, estruturas, estatutos, funcionários, meios de transporte dedicados exclusivamente ao tratamento da bosta.
Temos até uma segunda civilização, no andar de baixo da nossa, feita para que não tenhamos que conviver com a merda. O esgoto é a nossa Atlantida, a cidade perdida da bosta. Lá escondemos aquilo não gostaríamos que fosse nosso.
Somos como os deuses, mas cagamos. A maçã ingerida por Eva era muito mais que um simples fruto. Eram inúmeras toneladas de bosta. Essa é a nossa maior diferença em relação às outras espécies, nós somos os Deuses da Bosta.
Vou ver o que a Rosinha acha disso.
março 25, 2011 às 5:55 pm |
Diria que o senhor melhorou, e muito sua habilidade textual. Excelente.
abril 4, 2011 às 4:36 am |
Graaaaande Leo!!! Simplesmente sensacional seu texto!!! Adoro tudo que contesta e questiona as ditas “superioridades” humanas. Parabéns, meu rapaz!
julho 6, 2011 às 1:53 am |
Bosta é esse texto
julho 12, 2011 às 10:55 pm |
Meu caro Leo, de fato esta vida é uma grande bosta!